Tragédia na Madeira - Mealhadenses contam como é viver no Funchal depois da destruição
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Reportagem de Mónica Sofia Lopes
No passado dia 20 de Fevereiro, choveu mais do que o normal no Funchal – Madeira -, o que provocou o enchimento das ribeiras, que acabaram por transbordar e levar tudo à frente. Agora, e passado mais de uma semana, é tempo de fazer o rescaldo – morreram quarenta e duas pessoas, os prejuízos, possivelmente, rondam os mil milhões de euros, e prevê-se um período, de pelo menos três anos, para a recuperação das zonas afectadas – e erguer as cidades que ficaram mais destruídas. O Jornal da Mealhada falou com duas mealhadenses, professoras do Ensino Básico, que residem no Funchal há já vários anos, e também com Carlos Leonel Fernandes, jogador do Futebol Clube da Pampilhosa e estudante na Faculdade de Direito de Coimbra, que é natural da Ribeira Brava - uma das zonas mais afectadas pela tragédia -, que “viu” perder muitos dos seus bens. São testemunhos na primeira pessoa de quem viveu o momento, passou por toda a tentativa de recuperação e vive agora com os “prejuízos” desta tragédia, assim como pelo sofrimento de quem está longe e muito pouco pode fazer pelo que aconteceu.
“No local onde trabalho vêem-se casas em risco de ruir”, declarou Telma Cerveira
“Estava em casa, que fica no Caniço, uma cidade ao lado do Funchal, aproximadamente a oito quilómetros do centro, quando tudo aconteceu”, afirmou uma das mealhadenses com quem falámos, que acrescentou: “Tinha percebido que o tempo estava muito mau, chovia muito e o mar estava agitadíssimo, tinha uma cor estranha, manchas castanhas e trazia alguns detritos, tais como troncos de madeira, muito lixo, etc. Mesmo assim não percebi imediatamente o que se estava a passar”.
“Ficámos algum tempo sem electricidade e, mais tarde, quando voltou continuámos sem televisão, telefone e telemóvel, pois a antena desta zona tinha caído. Só tive mesmo noção do que estava a acontecer quando, eu e o meu marido, decidimos sair de casa, eram 10h 30m, e nos cruzámos com um vizinho que nos disse que acabava de regressar do lado do Funchal e tinha visto estradas completamente inundadas, carros caídos na via rápida, etc.”, declarou a jovem.
Para Telma Cerveira, mealhadense e residente na zona do Lido, também no Funchal, a situação foi diferente uma vez que estava na Mealhada, a passar as férias de Carnaval, quando tudo aconteceu. “Regressei à Madeira no dia seguinte à tragédia. Senti algum receio em voltar para a ilha uma vez que não sabia bem como estavam as coisas e as imagens transmitidas pela televisão eram aterradoras”, explicou Telma Cerveira, que acrescentou: “A viagem correu bem até à altura da aterragem, devido aos ventos fortes o piloto só conseguiu à segunda tentativa”.
E que diferenças mais têm sido notadas após a tragédia, perguntámos. “As principais diferenças estão relacionadas com os transportes públicos, com os acessos ao centro do Funchal e também com a paisagem no seu geral que está “triste”. A mentalidade das pessoas mudou, isto é, alterou-se o respeito da população pela força da natureza, uma vez que, perceberam da pior forma, não se pode construir a pensar que a natureza nunca se manifestará”, declarou uma das nossas entrevistadas.
“Na terça-feira – após a tragédia - fui a uma das zonas do Funchal atingidas pelo temporal e deparei-me com um cenário muito triste. Vi carros no meio de pedras, o mar completamente castanho devido à lama, uma rotunda que tinha deixado de existir, lojas cheias de água e muita gente, e máquinas de um lado para o outro, a tentar limpar tudo. No local onde trabalho vê-se casas em risco de ruir e as estradas estão cheias de buracos e de pedregulhos”, afirmou Telma Cerveira.
A trabalhar em Câmara de Lobos, a mealhadense com que falámos, não viu as suas rotinas diárias sofrerem grandes transformações. “Apenas noto que há muito mais trânsito e as pessoas circulam com muito cuidado e cautela formando longas filas logo muito cedo. Sei também que o centro do Funchal ficou com muito menos parques de estacionamento, dificultando o estacionamento. Neste momento penso que nenhum está ainda a funcionar”, declarou. “Nota-se que, quando chove, as pessoas têm medo de sair e, ao mesmo tempo, têm medo de estar em casa. Basta vir uma chuva e um vento mais fortes que os pais vão buscar os filhos à escola para os levarem para casa”, afirmou Telma Cerveira.
Para Telma o dia-a-dia sofreu alterações. “Estou a trabalhar no Jardim da Serra e os acessos para esta localidade estão muito danificados pelo mau tempo. Temos de sair mais cedo de casa e tivemos de mudar de estrada para nos deslocarmos para a escola pois aquela que costumávamos utilizar está com buracos enormes”.
E a população madeirense como está a reagir a toda esta tragédia? “As notícias que aparecem na televisão, em relação ao Funchal, não mostram como este povo se empenhou na recuperação dos estragos, pois a resposta foi imediata e, ao fim de uma semana, está praticamente tudo limpo, restando apenas a recuperação das ribeiras”, foi-nos dito. “Apesar das consequências graves da tempestade, as pessoas têm tentado recuperar desta tragédia. Nota-se que os madeirenses são muito unidos, todos tentam ajudar no que podem”, acrescentou Telma Cerveira.
Água esgotou de imediato e a que existe está mais cara
Outra das situações noticiadas, ao longo da semana, foi o aumento dos preços nos bens básicos e necessários. “A única coisa que reparei, foi a falta de água, de marca branca, nos supermercados, uma vez que é mais barata, esgotou de imediato. Reparei também que houve um ligeiro aumento do preço de alguns produtos, tais como, legumes, verduras e frutas”, explicou a mealhadense. “Senti o aumento do preço da água e de alguns legumes e fruta”, enfatizou Telma Cerveira.
E falta de bens de primeira necessidade já se sentiu na Ilha da Madeira, quisemos saber. “Notei que alguns alimentos básicos estavam em pequeno número nas prateleiras, mas pelo facto de ter havido uma grande adesão da população, que solidária, quis ajudar as pessoas que perderam as suas casas, os seus bens, etc.”, respondeu a mealhadense que vive no Funchal há já oito anos.
Incontactável durante as primeiras horas da tragédia, a jovem explicou: “Passámos dias bem difíceis, uma vez que, nos encontrávamos incontactáveis e não conseguíamos tranquilizar os nossos familiares. Mesmo nos dias seguintes, por vezes, não conseguíamos fazer um telefonema em plenas condições”.
A dar aulas no Funchal há oito anos, a mealhadense, em jeito de conclusão, lamenta tudo o que aconteceu. “Foi realmente muito triste assistir a tudo isto. Em oito anos vi a Madeira evoluir muito. Aqui vive-se para o turismo e nota-se as coisas a desenvolverem-se, a progredirem e a transformarem-se. Têm sempre tanto cuidado com a limpeza, arranjo e apresentação da ilha, principalmente na cidade do Funchal, que é triste ver acontecer tudo isto”.
Família do Leonel, do Futebol Clube da Pampilhosa, perdeu habitações
No continente há menos de um ano, está Carlos Leonel Fernandes, natural da Ribeira Brava, de vinte e dois anos de idade, jogador da equipa sénior do Futebol Clube da Pampilhosa e estudante de Administração Pública e Privada, na Faculdade de Direito de Coimbra. “Fiquei com a minha casa muito danificada, mas o que mais me custa é saber que as casas de familiares, pois toda a minha família foi afectada, e de vizinhos foram totalmente destruídas”, declarou, ao Jornal da Mealhada, o jovem que garantiu: “O que aconteceu não é um problema de uma só pessoa, é de todas!”.
Preocupado por estar longe e ser-lhe “difícil deslocar-se de uma hora para a outra, deixando tudo aquilo que está a conquistar no continente”, Leonel, denominação que lhe dão no FCP, declarou: “Na Madeira somos muito unidos e vamos conseguir levantar tudo o que "caiu"”.
A direcção e toda a equipa do Futebol Clube da Pampilhosa estão a organizar um jogo de beneficiência que vai reverter a favor deste jogador madeirense. “Parece que nem me "choco" com este acto, uma vez que, desde que cheguei, este clube foi sempre muito acolhedor para mim e para os restantes jogadores do plantel. Penso que a chave do nosso sucesso está nisto mesmo”, elogiou Carlos Leonel que não disfarçou a emoção. “Este gesto sensibilizou-me imenso. Só tenho que agradecer o facto de poder ser um veículo de meios, sejam eles quais forem, para a Madeira”, acrescentou.
Mas o madeirense não se limita a levar o dinheiro apenas para a sua família. “Quero ajudar todos os habitantes da Ribeira Brava. Este gesto do FCP nunca vai ser esquecido lá, isso garanto!”, concluiu Carlos Leonel.
Solidariedade para com Carlos Leonel, jogador do FCP, mobiliza jogo de beneficiência
“Temos um atleta no Futebol Clube da Pampilhosa, que é madeirense e estuda na universidade em Coimbra – Carlos Leonel -, que está a pensar em deixar tudo aqui porque, com a tragédia que aconteceu no passado fim-de-semana, perdeu tudo o que tinha nesta ilha”, declarou Guilherme Duarte, presidente da direcção do Futebol Clube da Pampilhosa, na passada reunião da Assembleia Municipal da Mealhada. “Para o ajudar, vamos lhe oferecer todo o dinheiro realizado no jogo, de 14 de Março, no Campo da Pampilhosa. Pensamos vender cada bilhete a três euros”, acrescentou.
“Queremos, no final do jogo, dar um cheque ao atleta, com o dinheiro angariado, e em nome do seu pai”, disse ainda Guilherme Duarte, que acrescentou: “O senhor presidente da Câmara da Mealhada dá-nos total apoio e será feita uma conferência de imprensa, nos Paços do Concelho, na próxima sexta-feira – 5 de Março”.
MSL |
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Data Publicação: 2010-03-02
Autor: JM
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