O ferry boat navega há cinco horas sobre a tranquilidade absoluta das águas do Mar Tirreno.
São quatro da manhã, ainda a noite é a escuridão que precede a madrugada e o silêncio dos passageiros reparte-se entre os que se aboletam nas cabines, os que dormem nos bancos e alguns que aproveitam a serenidade e o fresco nocturno para sair ao convés em dois dedos de conversa. Acordei com o barulho do silêncio ou com algum pesadelo que me passou pelo sonho, coisa que de vez em quando me agita o pensamento adormecido e me rouba tempo útil do descanso nocturno. No embarque , em Olbia, o navio era meio mundo, uma feira de gente variada traduzida em línguas perceptíveis e não perceptíveis, soltas entre o latino italiano da maior parte da tripulação e inúmeros turistas dos quatro cantos do mundo que enchiam a nave. Depois, com o acomodar da noite, toda a babilónia se acomodou a bordo, da forma que entendeu, e a viagem sossegou os ânimos e as emoções duma semana vivida na beira mar duma ilha antiga com belas e sossegadas praias entre as arribas rochosas.
Olbia é uma velha cidade da Sardenha. Diz-se que foi fundada por gregos, fenícios, púnicos, bizantinos e romanos e embora não se saiba datar exatamente o seu nascimento, foi por volta do ano 4.000 aC. Hoje é uma amalgama dessas civilizações antigas e é dos testemunhos históricos desenterrados pela arqueologia que vive a cidade, a par de alguma indústria alimentar, mas é sobretudo o turismo que lhe dá a maior riqueza , donde, além da urbe propriamente dita, sobressai a vizinha Costa Esmeralda. São às multidões os forasteiros que deixam no lugar quantias contabilizadas relativas à passagem e estadias na cidade e na ilha.
Quando nós portugueses pensamos em turismo, somos tão pequenos no pensamento como no tamanho, e fazemos desta actividade uma coisa de amadores, às vezes uma panaceia que irá, sem qualquer fundamento ou perspectiva, dar salvação ao país que somos! É catastrófico o conceito que o poder de muitos municípios, por exemplo, tem sobre o assunto, bem como irresponsáveis as despesas que se fazem em nome deste sector sem qualquer base efectiva ou perspectivada e cujo feedback não se apura.
Não quero ofender ninguém chamando a este poder, poder pacóvio e inconsciente, mas é certo que essa é a minha perspectiva corrente e vem-me sempre à ideia a minha terra, o Buçaco, que dentro dos poucos recursos assinaláveis da zona centro, foi entregue a uma gestão folclórica e paroquial, que faz turismo escolar para os meninos de escolas e infantários locais, para a terceira idade concelhia levada em autocarros subsidiados, via-sacras para os paroquianos, festas de aldeia para os residentes vizinhos e por aí adiante. Onde está o retorno destas brincadeiras? Mas contam as cabeças que entram às portas da Cerca e chamam-lhes turistas! Isto não é turismo, no mínimo é brincar com ele e desacreditá-lo. É um absurdo, um embuste, talvez para ludibriar incautos, distraídos ou desinteressados, porque ser turista é coisa diferente e que não se coaduna nem contabiliza com merendolas e arraiais de trazer por casa. De turistas, nada. De riqueza acrescentada, menos ainda. Os bizarros gestores do parque através da fundação politica-partidária que o controla, não sabem que há poucos anos o Buçaco recebia muito mais turistas do que recebe hoje e que a sua gestão tem apenas contribuído para o desaparecimento do recurso nos circuitos nacionais e internacionais, com a consequente quebra de receitas, que são inegáveis, nos negócios turísticos do município. Se o executivo municipal soubesse e quisesse medir a riqueza criada, um feedback para cuja avaliação é preciso apenas somar e subtrair, veria, preto no branco, em números absolutos, qual é o contributo que a sua política para o turismo, através da Fundação do Buçaco e das Termas do Luso, tem sido, ou seja, uma catástrofe para o município e para a freguesia. Tal como os gastos feitos com as Maravilhas que a acreditar em muitos agentes locais se tem limitado a uns almoços amigáveis depois duma generosa oferta de leitões a deputados de que nada resultou. Era necessário clareza e mais que isso, seriedade, para que os munícipes soubessem claramente o que se gasta com estes disparates através dos custos e dos proveitos,o tal feedback, coisa que não se sabe porque não se quer saber nem informar.
Olbia é uma cidade pequena e tem um ótimo porto de mar. E é um mundo de turistas na época balnear e não só. Vende-se em todo o mundo em qualquer agência de viagens da mais forte à mais rudimentar, porque o turismo em Olbia, ou melhor dizendo, na Sardenha, não é uma coisa de amadores como quem toma conta de clubes e associações e faz umas rifas para pagar à orquestra. São coisas diferentes, não se devem nem podem confundir na sociedade que somos.
Se estendermos estas calamidades pátrias a muitas áreas do país, coisas que os novos inexperientes e impreparados políticos exploram, podemos encontrar um somatório de asneiras visíveis, onde a pretensão de ser maior que os sapatos que temos para calçar nos levaram à ruína e à falência que nos obriga hoje a pagar na Europa os mais altos juros para não morrermos de fome, juros que são completamente insuportáveis para que nas próximas décadas possamos pagar as dívidas. No caso das fundações, pedimos dinheiro emprestado para pagar a oportunistas enquanto se mandam embora os funcionários do Estado que faziam o serviço.
Como colónia alemã, que no momento somos, e reféns de entidades credoras faraónicas, é evidente que só há uma solução se a União Europeia se entender em termos orçamentais e nos perdoar as dívidas, que a soberania já se foi. Se assim não for, continuará o processo colonialista onde estamos envolvidos e esperam-nos seguramente tempos amargos como os de Salazar.
Como se vê nos nossos dias, a soberania perde-se facilmente, o poder político e empresarial impõe-se sem oposição nem luta, o poder judicial tem bitolas e uma força policial tipo salazarista depressa se monta e actua em nome da Pátria, da coesão, ou de qualquer outro chavão forjados pelas ditaduras.
Parece que tudo isto não aconteceu nas nossas vidas, parece que o tempo apagou em definitivo as antigas dificuldades, a nossa fome, a falta de acesso ao ensino, as desigualdades, a emigração, o despotismo dos detentores da riqueza do país, o servilismo geral onde se vivia, o medo de falar ou de perder o miserável emprego!
Hoje, não são só sinais dum regresso que estão à nossa vista. Passou-se essa fase e já acontecem fenómenos onde se pode encontrar a mentalidade e o regresso a essa sociedade do trabalho barato, do desrespeito total pela pessoa humana, em muitos casos da escravidão, do abuso e da pobreza. Com a destruição indiscriminada do tecido social e económico da nação portuguesa, o que pretende o poder? Controlar o deficit ou voltar aos tempos de má memória? Sem crescimento económico e com taxas incomportáveis a suportar, tudo leva a duvidar do caminho que se pretende seguir, um caminho impossível que nos leve a algum lado.
No meio destas deambulações, rompeu a manhã serena e limpa e o barco da Moby aproximou-se do Porto Antico, em Génova, cuja silhueta começou a surgir em cascata sob os picos dos Apeninos. Saio do fresco da ponte e volto para o meu lugar.
Mais tarde, deixo a estação marítima e tomo o metropolitano que me levará ao destino. Incógnito entre a multidão de residentes e turistas, que invadem este país, onde, por vezes, para subir à torre de Pisa se tem de marcar a hora com dias de antecedência. Entristece-me o comparar este conceito de turismo, com a pequenez das nossas mentalidades!
PS: O governo acaba de anunciar os exageros das fundações. Despedem-se os funcionários com vínculos de décadas e albergam-se oportunistas sem concursos nem perfis para os lugares, a preços milionários. Estranho país, estranha bancarrota!
Génova, 2 de agosto de 2012
FERRAZ DA SILVA
CRÓNICAS LOCAIS #124